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Suas vacinas estão em dia?

Já se vão 221 anos desde que o termo “vacina” foi usado pela primeira vez em uma pesquisa feita pelo médico e cientista inglês Edward Jenner. Era 1798 e Jenner resolveu realizar alguns experimentos a partir de histórias que diziam que os trabalhadores da zona rural não contraíam varíola porque já haviam sido infectados pela varíola bovina, de menor impacto no organismo humano. Jenner refletiu, então, sobre a possibilidade de que esse contato pudesse ser a chave para a proteção contra a doença e decidiu introduzir os dois vírus (primeiro o da varíola bovina e, após um intervalo, o outro) em um garoto de oito anos que sobreviveu sem nenhuma sequela. Jenner descobriu, assim, que os rumores sobre os camponeses tinham, de fato, uma base científica. A palavra vacina deriva justamente de Variolae vaccinae, nome científico dado à varíola bovina.

A partir dessa primeira descoberta, vêm sendo continuamente desenvolvidas novas formas de imunização ativa (quando o próprio corpo produz os anticorpos por meio da vacinação) para as mais diversas doenças. Importantíssimas na primeira infância, as vacinas devem estar presentes nas diferentes fases da vida.

Longe do que pensa a maioria das pessoas, portanto, o calendário de vacinação não termina na adolescência como explica, na entrevista a seguir, a doutora Mirian de Freitas Dal Ben Corradi, médica do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Sírio Libanês e conselheira internacional da Society of Healthcare Epidemiology of America (Sociedade Americana de Epidemiologia Hospitalar). Confira:

 

Como funcionam as vacinas?

Existem basicamente dois tipos de vacinas: com o microrganismo vivo (mas enfraquecido, atenuado ou inativo) ou com um componente do microrganismo. Quando a vacina é administrada, as células do nosso sistema imunológico têm contato com esse microrganismo, provocando uma reação que estimula a produção de anticorpos. Por isso, a vacina é considerada uma imunização ativa. Se formos expostos àquele microrganismo, posteriormente, nosso corpo já terá aprendido a se defender e produzirá uma resposta imunológica rápida e eficiente. Ou seja, mesmo que adquira a doença, ela se dará de forma bem mais leve.

Existem vacinas contra vírus e bactérias?

Sim, os microrganismos combatidos podem ser vírus ou bactérias. No caso dos vírus, temos, por exemplo, a tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola), a da gripe e da febre amarela. E temos as vacinas direcionadas contra bactérias como a da meningite, da coqueluche e da difteria. 

 

Por que está ocorrendo um movimento antivacinal em alguns países?

Esse movimento surgiu em 1998 quando o médico e pesquisador inglês Andrew Wakefield publicou um artigo na revista científica Lancet, uma das mais renomadas do mundo, correlacionando a vacina tríplice viral com o autismo. Posteriormente, foi descoberto que seus dados haviam sido forjados e que, na verdade, ele tinha interesses secundários porque pretendia patentear uma nova vacina. Embora a própria revista tenha se retratado, o estrago foi grande e, até hoje, esse “estudo” é usado como argumentação contra as vacinas.

O movimento antivacinal prega a suposta necessidade de deixar a criança adquirir sua imunidade “naturalmente”. Os resultados dessa postura podem ser desastrosos. Os casos de sarampo registrados no mundo, por exemplo, tiveram alta de 300% em 2019, segundo a Organização Mundial de Saúde. Nos três primeiros meses do ano, já foram reportados 112.163 casos da doença em 170 países.

Na foto: Dra. Mirian de Freitas Dal Ben Corradi
O movimento antivacinal é forte no Brasil?

Ele é identificável, mas não é muito forte. No Brasil, também houve aumento de casos de sarampo, porém as ocorrências se deram mais por falhas na cobertura vacinal e por questões específicas como na divisa com a Venezuela, na região Norte, por conta da imigração daquele país.


Qual é, na sua visão, o papel da vacinação para a saúde da população?

Sem sombra de dúvida, as vacinas foram as estratégias de saúde pública mais eficazes da história da humanidade. Foram as que mais reduziram a mortalidade e a morbidade das doenças. Isso é inegável e há uma infinidade de dados que comprovam essa constatação.

Pessoas nascidas a partir de 1990, por exemplo, podem nunca ter tido contato com indivíduos com sarampo, rubéola e poliomielite. Isso porque as constantes ações de vacinação foram capazes de controlar ou eliminar essas doenças em nosso país. No entanto, falhas na cobertura das campanhas ou a expansão do movimento antivacinal podem colocar em risco a erradicação ou redução significativa de muitas moléstias graves.

 

Como uma doença entra no calendário vacinal público?

O programa de imunização no Brasil avalia continuamente as doenças que causam mais morbimortalidade (sobretudo na população infantil) versus a comprovação de eficácia da vacina. A partir dessa análise, são escolhidas as vacinas que entram no calendário oficial do sistema público. Além disso, as vacinações podem ser feitas em clínicas e laboratórios particulares.

Um bom exemplo é a HPV, uma infecção sexualmente transmissível associada ao câncer de colo de útero, pênis, cabeça e pescoço. Os Estados Unidos e Inglaterra reduziram a incidência de câncer de pescoço através da vacinação, sendo que 70% dos cânceres de orofaringe foram relacionados ao HPV.

Nos postos de saúde, a vacinação contra o HPV é oferecida gratuitamente para meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos, visto que idealmente ela deve ser administrada antes do início da atividade sexual. Mas existem opções em clínicas particulares para mulheres até 45 anos e homens até 26 anos.

 

Vacinação não é, portanto, coisa de criança?

De jeito nenhum. É coisa de bebê, de criança, de adolescente, de adulto e de idoso... Dependendo das doenças e das vacinas, há imunizações e reforços para serem feitos em todas as faixas etárias.

Associar vacinação somente com os primeiros anos de vida é um erro muito perigoso. Depois de certo tempo, a quantidade de anticorpos para algumas doenças vai diminuindo e, por isso, precisamos dos reforços. A quantidade de doses e o período de imunização variam conforme o vírus ou a bactéria. Portanto, é fundamental ficar sempre atento ao calendário vacinal.

Além disso, há algumas doenças mais específicas e frequentes em adultos e idosos para as quais existem vacinas também. Este é, por exemplo, o caso da pneumonia e do herpes zóster.

É bom lembrar que as vacinas contra tétano, difteria e coqueluche exigem reforço a cada dez anos. A vacina contra a gripe é anual e a faixa etária acima de 65 anos é considerada de risco para influenza grave. Então é preciso pensar em vacina durante toda a vida, fazendo sempre os acompanhamentos necessários.

O calendário para adultos (a partir de 20 anos)

Vacina

Dosagem/intervalos

Febre amarela

1 dose*

Hepatite B

3 doses (a segunda após 1 mês e a terceira após 6 meses)

Hepatite A

2 doses (a segunda após 6 meses)*

Herpes zóster

1 dose (recomendada a partir dos 50 anos)

HPV

3 doses (o intervalo varia conforme a vacina). Pode ser administrada até os 45 anos para mulheres e até os 26 anos para homens

Influenza (gripe)

1 dose anual

Meningite ACWY e B

1 ou mais doses (ACWY) e 2 doses (B), recomendadas em situações que justifiquem como presença de comorbidades e risco epidemiológico, entre outras

Pneumonia

1 dose (recomendada a partir dos 60 anos ou para quem apresenta a doença com frequência, tem imunossupressão ou não tem baço)

Tríplice bacteriana (difteria, tétano e coqueluche)

1 dose a cada 10 anos**

Tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola)

2 doses (a segunda após 6 meses)* São necessárias as duas doses, caso não tenha tomado na infância ou adolescência

Varicela (catapora)

2 doses (a segunda após 1 mês)* São necessárias as duas doses, caso não tenha tomado na infância ou adolescência

* Somente até os 60 anos. Após essa faixa etária, apenas em situações que justifiquem como presença de comorbidades e risco epidemiológico, entre outras

** No serviço público, costuma ser oferecida a Dupla Bacteriana para adultos (difteria e tétano)

 

Importante:

  • Fale sempre com seu médico para avaliar seu caso e necessidades específicas de imunização.

  • Gestantes, em especial, não devem tomar nenhuma vacina sem antes conversar com seu ginecologista/obstetra.

  • Consulte o calendário de vacinação de seu estado/município para checar as vacinas oferecidas gratuitamente.
Quer saber mais? Então clique aqui e acesse o site da Sociedade Brasileira de Imunização (Sbim). Lá você encontra calendários específicos para cada faixa etária.
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